Caco waiting at Westbury station in England with his travel backpack
Ensaios · Viagens · 6 min de leitura

Meu grande sonho de viagem: um ano pelo mundo

Junho 2026

Há momentos em que a vida te coloca cara a cara com a possibilidade de escolher em grande, ou de seguir a inércia que a rotina costuma impor quando você não levanta o olhar. Eu optei pelo primeiro.

Eu saía do auditório onde, segundos antes, tinha acabado de passar no meu exame de formatura em Direito. Os últimos meses se preparando para essa prova e a decisão de não me dedicar à advocacia — apesar do esforço que estava fazendo — eram um golpe duro àqueles anos de longas jornadas de dedicação e estudo. Não havia volta atrás. A decisão já estava tomada. Eu ia embora.

O sonho

Meses antes, num dia qualquer, me aproximei da Fran (minha atual esposa) e com uma voz culpada perguntei: "Você quer vir comigo viajar um ano pelo mundo?"

Era uma loucura, uma ilusão. Ela achou que era uma brincadeira. Alguns segundos se passaram antes que ela parasse de esboçar um sorriso, percebendo que isso não era uma brincadeira. Meu rosto permanecia sério e meus olhos brilhavam de paixão. De repente ela me perguntou:

"Você está falando sério?"

Algo me dizia que bastava ela dizer que estava disposta a ir comigo para eu encontrar a maneira de largar tudo e sair a percorrer os cantos mais impressionantes do mundo. Quando o fogo de verdade te leva a realizar sonhos de viagem, nada o detém.

— E de onde vamos tirar dinheiro? — me perguntou a Fran.
— Estou trabalhando há meses para juntar o que as passagens vão custar — respondi.
— E quando isso acabar?
— A gente vai dar um jeito, vamos trabalhar pelo caminho, ficar na casa de conhecidos… juro que a gente vai dar um jeito.

A Fran estava agora mais séria do que nunca. Aquela decisão que eu já havia tomado enquanto estudava também tomava forma para ela, transformando-se em uma daquelas grandes encruzilhadas que podem mudar sua vida para sempre.

Foi um dia qualquer que ficaria na história das nossas vidas. Não só porque a viagem era definitiva, mas também porque minha esposa se tornaria minha companheira de viagens. Um verdadeiro marco no nosso relacionamento.

Houve muitos mais "mas," muitas mais dúvidas, muitos mais medos. Mas já estávamos juntos embarcados em nosso grande sonho de viagem — uma aventura que não conhecia mais o caminho de volta.

O dia do exame

Quando aqueles professores me escrutinavam diante de uma grande plateia faminta por sangue, enquanto eu tentava sobrevivir a uma das provas mais estressantes e difíceis que uma pessoa pode passar, minha mente já estava nos templos de Bali, nos campos da Inglaterra, nos chamados à oração muçulmanos e na comida tailandesa. Minha viagem já havia começado muito antes dessa prova, muito antes de pisar num aeroporto, muitos anos antes, quando pela primeira vez me imaginei descobrindo o mundo.

De repente ouvi aquelas palavras que não vou esquecer: "Parabéns, colega!" Mas para mim soaram mais como um "Boa viagem, Carlos!"

Tomei consciência de que a gravata me prendia o pescoço — uma etapa se fechava. O mapa cobria meus passos e eu já rumava para os meus sonhos. Sem ainda ter assimilado o fato, sorri e saí daquele auditório.

Um sonho realizado

Quando o avião decolou rumo a Lisboa, eu e Fran nos olhamos, nos abraçamos e, em silêncio e apesar de todas as dúvidas e medos, começamos a chorar de felicidade.

"É assim que se sente realizar um sonho, é assim que se sente a felicidade," ela disse. A melhor aventura das nossas vidas começava.

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